quinta-feira, 9 de abril de 2026

Roda a roda.

 Roda a roda.

Rodou, roda e continua a rodar. Isolaram, com a cara virada para a parede do fundo da sala de aula o mal comportado para não contagiar os restantes bem aplicados e obedientes. Com reguadas pesadas aqueceram as palmas das mãos dos que julgavam ser incapazes. Puseram-nos nas filas de trás para que as da frente fossem ocupadas pelos que tiveram a sorte de nascer em berços mais cómodos. Humilhados foram também com alcunhas engraçadas para os das filas da frente mas sem graça nenhuma para os das filas de trás. E a roda rodou e continua a rodar… emperrada. Isolaram os leprosos há muito tempo, contam, porventura por incapacidade de acolher. Internaram loucos porque não tinham espaço fora das paredes dos hospícios. Ergueram muros para não se conseguirem falar, ver, tocar de um lado para o outro. Degredaram desalinhados em prisões siberianas insuportavelmente frias. E a roda rodou e continua a rodar… empenada. Torturaram para ouvir as suas verdades inexistentes. Concentraram em campos fechados e sombrios o que julgaram ser uma raça inferior. A roda rodou e continua a rodar… emperrada, empenada. Colonizaram culturas que consideravam incivilizadas. Dizimaram etnias por praticarem distinto. O sem-abrigo ficou feliz com o telingar da moeda ao cair no fundo da lata vazia e quem a doou dormiu melhor nessa noite por sentir que se livrara da sua própria pobreza. E a roda emperrada e empenada continua a rodar.
Hoje, ao terceiro dia de primavera do ano de dois mil e vinte e seis nada ressuscitava no sepulcro da desilusão. Sentado no sofá, de chávena de café na mão, a contemplar o planalto ainda pintado de branco, pela ampla janela salpicada pela chuva, telingava no fundo do meu ânimo afadigado o pensamento cismado nesta roda ferrugenta e torcida que insiste em continuar a rodar. No entanto, a conclusão nenhuma cheguei. Caia já a noite e perguntava-me, já a passar pelas brasas, sobre o porquê de apenas dois dos trinta e seis stands organizados no espaço da feira, nomeadamente o stand número um e o stand número dois, reservados aos Livros de Autor/Edições independentes e ao atelier “Nó Projetos”, respetivamente, estarem deslocados, localizados a sensivelmente oitenta metros, muito longe do centro e da azáfama da feira onde a festa, os encontros e todo o rebuliço ia acontecendo.
José Côrte
Publicado em "Cartas do leitor", do Diário de Notícias da Madeira, em 28 de março de 2026.
Texto criado sem recurso à inteligência artificial.

quarta-feira, 29 de junho de 2022

 A carrinha branca da funerária


A carrinha branca da funerária 

Ultrapasso acelerado

Vamos na mesma faixa

Vamos para o mesmo lado.


A carrinha branca da funerária

Comovido ultrapasso

Vamos na mesma faixa

Mas em diferente compasso


Deste meu sofrido estar 

Tomo alegremente lucidez

Vamos na mesma faixa

Nesta incompreensível avidez


Ultrapasso acelerado

A carrinha branca da funerária 

Onde descansa Dona Eulália

Vamos na mesma faixa

Mas em direção contrária.

Onde está o azul?


 Refrão:


Onde está o azul?

do céu, do céu

Onde está o azul?

do mar, do mar (bis)


Estrofes:


Uma tartaruga

tentou a sua sorte

Foi à procura do azul

Dizem que foi para norte (bis)


Um golfinho cor de rosa

Foi à procura do azul

Dizem que foi pra sul

Dizem que foi pra sul (bis)


Um ouriço do mar

Num dia de mar agreste

Foi à procura do azul

Dizem que foi para este  (bis)


Um cavalo-marinho

Num dia quente de leste

Foi à procura do azul

Dizem que foi para oeste (bis)

Não sei ao que vim


 Não sei ao que vim

Se soubesse talvez não viria

Ou talvez sim.


Não queiras me entender,

Eu próprio não me entendo.

Em vez de ficar parado

Estou sempre correndo


Correndo, crescendo,

Caindo e morrendo

Todos os dias

Feliz e sofrendo.


Não sou inimigo, 

não te quero mal

Talvez procure açúcar 

Vinagre, azeite ou sal


Não sei o que era, não sei o que sou 

Só sei que respiro bambeado 

Vagueio desnorteado

A desoras

Antes e depois das quatro horas


Não sei ao que vim

Se soubesse talvez não viria

Ou talvez sim.